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7 de fevereiro de 2006

 

Sobre a vida e o tempo


Filosoferos
(autor: El hombre maíz)

Disse uma senhora numa mesa de bar, tão habituada aos afazeres de casa que havia se esquecido de tirar o avental:- Há no mundo vários universos, cada um deles com vários planetas, e em cada um desses planetas existe uma réplica de nós mesmos, digo, outro Alfredo, outra Maria, outro João, outro Ernesto. obviamente adaptados ao clima e à realidade de seus respectivos mundos. Quando sonhamos, nada mais fazemos que observar nós mesmos em outro universo, assim como eles, quando sonham, entram em contato conosco. Por exemplo, nesse exato momento posso estar em outro mundo longínqüo sonhando que estou numa mesa de bar e que me esqueci de tirar o avental. Assim como o dia em que te assassinaram - disse, apontando a um jovem que levava uns óculos horríveis- certamente seu outro ¨você¨ deve haver despertado empapado de suor e haver comentado pela manhã: - Sonhei que um louco me disparava no meio da rua. Logo dirigiu seus olhos a um adolescente que se mal vestia a propósito e que se encontrava no outro extremo da mesa : - Comentavas outro dia que havia sonhado com a morte de sua mãe, pois saiba que em outro universo certamente você é órfão.
- Isso não faz sentido. Disse um velho de bigodes amarelados e cabelos cinza. - Durante minha infância sonhei várias vezes que me encontrava despido no meio da rua, logo, descobri que muitas pessoas têm esse mesmo sonho e de que é muito comum na infância, que me vai dizer? Que existe algum mundo onde as roupas das crianças desaparecem?
- E por que não? Respondeu a senhora enquanto desatava seu avental. - Acaso não me refiro a mundos distantes, com outras leis físicas, outras morais e outro valores incompreensíveis para nós? Ora, todos já sonhamos algum dia que podíamos voar, o que significa que em alguma outra dimensão somos dotados de tal poder, agora imagina o irreal que seria aos habitantes desse mundo quando sonham que estam paralíticos e que não podem mais locomover-se sem ajuda de uma cadeira de rodas, e no entanto, em nosso mundo não chega a ser a mais impensada das situaçöes. Agora considere quantos pessoas de nosso planeta já enfrentaram essa tragédia e logo compreenderá que no planeta em que podemos voar, todos os dias pessoas têm o mesmo pesadelo em que estão presos a uma cadeira de rodas.
- E quando sonhamos algo que se faz realidade a cabo de alguns dia? Perguntou o velho de bigodes amarelados e cabelos cinza
- Aí sonhamos com nosso próprio mundo. Sentenciou a sábia senhora já sem seu avental
Logo todos da mesa dirigiram seus olhos ao jovem de óculos horríveis para saber o que pensava daquilo tudo, mas, o jovem permanecia calado. Ao dar-se conta de que todos aguardavam suas palavras como se tratasse de um messias, concluiu irritado:
- E eu vou lá saber de sonhos, porra! Logo sentiu-se avergonhado por haver frustrado as expectativas de seus admiradores e tentou concertar timidamente: -Bem, é um ponto de vista interessante, muito mais pela criatividade que por qualquer outra coisa, que fique claro. Disse encarando o chão à espera de que lhe deixassem em paz. Segundos depois a senhora sem avental lhe disse docemente:
-Por que não nos repete aquela sua frase sobre a vida que eu gosto tanto?
- “Vida é tudo aquilo que acontece enquanto estamos ocupados pensando em outras coisas”. -Disse seco e apressado, logo se pôs a chorar. Ao fim de uns instantes desabafou: - Então é isso que acontece quando ficamos famosos? Vem um louco e dispara na gente?
Houve um mal estar na mesa, e o jovem que se mal vestia a propósito tentou mudar de clima declarando descontraídamente:
- Nada disso! Na verdade, a vida é uma viagem de ácido! -Todos riram
- É sério. -continuou. - Nada do que nos acontece é real. Na verdade somos seres totalmente diferentes de seres humanos e vivemos em um mundo que não se assemelha em nada à Terra. Um dia tomamos uma pastilha alucinógena e é quando supostamente nascemos. A infância é o princípio da onda, ainda estamos experimentando sensações e não temos muito conhecimento do que nos cerca, ou o que fazemos aqui, logo chega a juventude e é quando a viagem chega a seu ponto máximo. compare os efeitos da juventude com os de uma pastilha de ecstasy : superdisposição física, excitação, ultrasensibilidade...depois a pastilha vai perdendo efeito pouco a pouco e vem o cansaço, as dores,ou seja o preço que pagamos por nossos excessos, essa é a velhice, logo a morte é o fim da viagem.
-Se a vida é uma alucinação causada por uma droga deveria como mínimo ser divertida, pois, quem se droga está buscando prazer, no entanto, há pessoas que passam toda uma vida em miséria e sofrimento, e não me refiro somente às tragédias, às guerras ou às epidemias, pois isso de uma maneira ou de outra é tão desumano que nos pode fazer creer que não se trata da realidade, porém, que me dirá do tédio e da rotina? conheci um senhor que trabalhava lavando panelas num restaurante há vinte e cinco anos, ganhando o suficiente para pagar seu aluguel e a comida básica. Não tinha filhos, parentes, nada. Te parece sensato dizer que esta pessoa está curtindo alguma viagem? como me explicaria isso através de sua teoria? Sentenciou o velho de bigodes amarelos e cabelos cinza que adorava discordar.
-Esses são os que estam tendo uma bad trip, concluiu o adolescente que se vestia mal à propósito
- Nem todos morremos de velhos, podemos morrer em um acidente durante a juventude ou em qualquer outra etapa da vida. Continuou o velho amarelo e cinza.
-Quando isso acontece é porque alguém em nosso mundo real nos aplicou alguma medicação que cortou o efeito da droga da vida subitamente
- E as drogas estão legalizadas no nosso suposto mundo real? disse o velho
- E eu que sei? -finalizou o adolescente
- E a loucura? desafiou pela última vez o velho
- Uma overdose.- triunfou o rapazote
Segundos depois tomou a palavra um senhor com um mau hálito terrível que até então não se havia manifestado. Encarava sorridente ao adolescente que se vestia mal a propósito:
- Vendo você assim jovem, desafiador, criativo, dou mais crédito à minha teoria de que Deus é um menino. Toda a humanidade sempre representou a Deus como um senhor idoso, rigoroso, sério, ranzinza. Nada mais paradoxal. A velhice é a fase da decadência da vida, assim que se acreditamos em um ser criador da vida e do mundo, nada mais sensato que acreditarmos em um ser vigoroso, e não em alguém que se encontra no fim de suas faculdades vitais. Quanto ao seu caráter, passamos toda a vida evitando pessoas mal humoradas e rigorosas. Temos em nossas cabeças que certas pessoas são infelizes e ignorantes, e que, a maneira certa de viver é encarar as situaçöes da vida com bom humor e boa vontade, mas, logo idolatramos um Deus severo, punidor e que, se bem me lembro, ri muito pouco. Mantenho minha teoria. Deus é um menino ou uma menina. Por que não? E não digo um adolescente, digo uma criança realmente. Deus deve ter não mais que dez anos.
-Meu caro amigo. interferiu obviamente o velho de bigodes amarelos e cabelos cinza. Acredito que a razão pela qual representamos a Deus como um senhor idoso vem da crença de que Deus é um ser dotado de incrível sabedoria e há de concordar comigo de que se a velhice não é nossa melhor etapa da vida no que se refere à nossa saúde, compensamos com uma infinita superioridade em compreensão do mundo sobre os mais jovens.
-Tolices, nada mais que tolices.- cortou o senhor de mau hálito terrível. - Ao tornarmos velhos nos fazemos impacientes, nostálgicos, irritantes e temos uma memória péssima. Acaso crês num Deus assim? É fácil dar um exemplo. Ponha-se você mesmo no papel de Deus. Ora, isso é fácil de fazer. Podemos brincar de ser Deus, todos já brincamos de Deus alguma vez, ainda que involuntariamente. Quando era criança você certamente deveria possuir bonecos e miniaturas de automóveis, casas, castelos. E o que você fazia com eles? Brincava. Ou seja, criava histórias. enredos. seus bonecos se guerreavam, se apaixonavam pelas bonecas de sua irmã, capotavam com seu batmóvel, e tudo isso era criado por você. apenas você interferia em seus destinos, você era o Deus de seus bonecos. Zelava por seu bem-estar, tinha cuidado para que não se quebrassem, não emprestava a ninguém, os amava muitíssimo, mas, ainda assim, não deixava de divertir-se em colocar-les em situaçöes trágicas, seja afogando os na banheira junto com seu patinho de borracha, ou arrancando as pernas da barbie de sua irmã. Mas, obviamente nem tudo eram tragédias, ao mesmo tempo que você se divertia criando acidentes de automóveis, incêndios e terremotos com seus bonecos, você tinha o seu super herói favorito, aquele que tinha a melhor miniatura de ferrari e sempre se dava bem. E hoje? Voce como muito deve ter uma coleção de souvenirs a qual não toca nunca e não deixa ninguém tocar, nada mais polir e as deixar expostas em cima de uma estante para decoração. Pergunto: Se assemelha a vida ao tratamento que você dá aos souvenirs de sua estante? Somos criaturas imóveis, intocáveis, bem polidas e expostas numa prateleira? Creio que não, no entanto você é senhor de seus destinos, poderia criar romances e guerras entre suas miniaturas de bronze de cavaleiros medievais, mas você já está cansado demais pra isso, além da falta de imaginação e ilusöes. Outra vez pergunto: A que se assemelha mais o tratamento de Deus concosco seres humanos? Um menino irresponsável e brincalhão com seus bonecos ou um velho apático com sua coleção de souvenirs?
Fez-se silêncio. O velho de bigodes amarelos e cabeça cinza nada mais observava o centro da mesa pensativo. Depois se deu conta de que todos esperavam que dissesse algo. Era o único que não havia manisfestado suas idéias em relação à vida. Nada mais havia discordado de todas durante toda a tarde. tragou muita saliva, suspirou e começou a falar com voz amarga:
- Quando era pequeno, meu pai me levou a um parque de diversões, e, se há alguma situação que poso tomar como exemplo para representar minha idéia sobre a vida, foi esse dia distante.
A infância é a fila da entrada do parque. Passamos grande parte do tempo ansiosos para começar a divertir-nos. fazemos planos, imaginamos como seram as coisas lá dentro, o tempo de espera parece interminável, logo a fila começa a andar e você nem pode aguentar suas ilusões.
Assim que entramos no parque começa nossa juventude. buscamos nos divertir o máximo e cumprir com tudo que haviamos planejado. Estamos obrigados a sorrir. Se supõe que está tendo seu momento, assim que qualquer manifestação descontente seria inadmissível. Você DEVE se divertir, além do mais, todos ao seu redor não deixarão de recordar que tudo isso vai acabar a qualquer hora e que o melhor a fazer é aproveitar o tanto que consiga. Me lembro de estar com a cabeça tão tomada por essa idéia que quando tinha que entrar em uma fila muito vagarosa para um brinquedo, me afogava em ansiedade, sentia que estava malgastando meu tempo, que aquele momento era único e não podia desperdiçá-lo parado em uma fila. várias vezes tive a mesma sensação quando enfrentava alguma dificuldade na juventude, quis apressar o tempo, não suportava desperdiçá-lo. Isso sem contar que as horas passam muito depressa quando nos divertimos, ou sempre quando não queremos que passem. Aquelas mesmas horas intermináveis na fila da entrada se transformavam em rápidos instantes dentro do parque, assim como é inútil acreditar que dos dez aos vinte anos de idade transcorreu o mesmo intervalo de tempo que dos vinte aos trinta. Em breves momentos veio a noite e toda a angústia de saber que sobrava muito pouco tempo de diversão, e saía apressado buscando as última atrações do parque até que o sol foi desaparecendo e depois escureceu por completo e meu pai me chamou pra voltarmos a casa.
A velhice nada mais é que esse fim de tarde. A sensação de que tudo valeu a pena. Você fez o quanto pôde,mas, acabou. Restam as lembranças e isso é bom; restam as histórias e as experiências por contar quando chegar em casa e isso é gostoso. mas, às vezes toda essa euforia se mistura com a angústia de saber que não haverá volta atrás, digo, foi tudo maravilhoso e continua sendo, mas vivo agora esse fim de tarde, o dia se foi e às vezes me pergunto se soube aproveitá-lo. E esse fim de tarde? O que faço eu agora com esse fim de tarde?
Logo afundou a cabeça entre seus braços, agarrou seus cabelos cinzas e chorou baixinho.

***


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